sábado, 20 de agosto de 2011

3. Parménides


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" Se me falarem do tempo, sei o que é; mas se me pedirem para dizê-lo, já não sei " *

"A memória lembra-se do esquecimento"
Sto. Agostinho
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"A memória lembra-se de se lembrar"
Sto. Agostinho, Confissões, Livro X, Cap. XIV.
L.T. : O que me faz espécie, entre outras coisas, é o modo como essa questão ‘de’ ‘o’ ‘mesmo’ se vai desenrolando ao longo do tempo. Porque a história, ‘o’ histórico, também contam. Nem que seja para o pensarmos de outra maneira que não o meramente linear e banalmente cronológico. Não haverá outros ‘cronológicos’? Talvez deixando para outra altura as interessantes questões, p.ex., do logocentrismo, do nominalismo (o problema de se saber se os ‘Universais’ (Katholou) têm ou não têm uma existência extra-mental), do lekton e da ‘ideia’ clássica em Descartes, gostaria de abordar a questão ‘de’ ‘o’ ‘mesmo’ que não deixa todavia de estar com elas implicada como mostrou.
Se bem compreendi, você falou do ‘mesmo’ em Platão, Parménides, passando pelo «nominalismo», que «completou» esse processo, depois de um interregno «desconstrutor» com os estóicos (a tríade, «pensamento, linguagem e realidade» que se demarcaria da dicotomia alma/corpo). Mas acabando aquele caminho e aquela completude por redundarem na ‘ideia’ clássica de Descartes. Será isto? Se não é, ou não é bem, aceito observações.
E é curioso que entretanto me ocorreu que o sentido de 'completude' vai bastante ao encontro de uma certa tradição do ‘mesmo’, do 'autos', e da adequação (adaequatio, S.Tomás: “Veritas est adaequatio intellectus ad rei”); adequação esta que já remete para a homoiosis e orthotés (rectitude) em Platão indicada por Heiddeger ( vj. A Doutrina de Platão sobre a Verdade, La Doctrine de Platon sur la Verité, Questions II, Gallimard). Mas voltando a Parménides: “Kré tó legein te noein t’éon emmenai, esti gar einai” (fr.6, Simplício, Phys…). Que quer dizer, na tradução, p.ex., de Trindade Santos (Da Natureza, Parménides, Alda Editores…): “É necessário que o ser, o dizer e o pensar sejam, pois podem ser”. Aqui ainda não há o ‘proposicional’ (proposição, prótasis – enquanto forma, expressão verbal de um juízo -, o apofântico, a definição (órismóus) que surge com Aristóteles. Também com ele se enuncia o princípio de não-contradição (também designado "de contradição" ou de "identidade") : “Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto” (Metafísica , 1005 b 19). Portanto, ontologicamente. Embora esta designação (Ontologia) como área disciplinar venha muito séculos depois, variando as datas segundo os autores. Bem como Meta ta Physika, que, como sabe também, vem, segundo Andrónico de Rodes, «depois da Physika», de acordo com a inventariação da sua obra.
Mas pelo meio, temos Platão que se encontra, se assim se pode dizer, na charneira dessa passagem. E temos aquele passo indicado por Heiddeger (em Identidade e Diferença). Simplificando, o passo do diálogo ‘O Sofista’ 254d que diz segundo o pensador alemão: em vez de "cada um ele mesmo o mesmo" (hékaston auto tautón; na edição brasileira Livraria duas cidades, trad. Ernildo Stein, disponho também das Questions com a ‘expressão’ em grego), "cada um ele mesmo para si mesmo o mesmo" (hékaston he auto tautón). Não sei grego. Que me desculpem os entendidos. Conheço uma razoável terminologia «técnico-filosófica» (decididamente não me agrada esta expressão) e estou a iniciar-me nalguma gramática, sem que faça disso uma das minhas prioridades. Voltando a 254d. Mas que redundância é esta que se está a dar? Que ressonância? Por outro lado, não poderemos supor que Parménides se encontra numa instância intermédia? Para não falar da complexidade das relações do seu pensamento com o de Heraclito? Por exemplo, estou a lembrar-me de algumas passagens em Homero. Este poeta, tinha um certo costume de, para definir melhor alguma acção, proceder a uma espécie de comparação, narrativa ou metafórica (?): “Tal como... assim também...” (p.ex. vj. Odisseia, IV, 233, Trad. Frederico Lourenço; e sensivelmente no mesmo registo na Ilíada, XXI, 572). Quer dizer, estabelecia paralelos de acções.
Outro exemplo, e muito mais antigo, é o dos órficos (compilado por Ferecides de Siros, séc. VI a.C., e posteriormente por Damáscio, séc.V-VI d.C.; veja-se Kirk e Raven, Os Filósofos Pré-Socráticos, Gulbenkian): é o caso da entidade Chronos (tempo) “imperecível”, “que não envelhece”. Chronos que, curiosamente, vem a ser «analogado» fonética e etimologicamente (Op.cit., p.32) numa certa tradição (segundo alguns antigos e alguns estudiosos da modernidade) com Crono (titã), filho dos titãs Geia e Uranus. Ora não é que, por seu turno, algo se vai repetir embora ‘diferente’ quando Zeus mata – destrona - Crono, tal como quando Crono mata – destrona – Uranus? Mas para já o que queria salientar aqui é essa ‘mesmidade’ do imperecível em Chronos. E também, tentar mostrar como Parménides, o pensamento de Parménides, se encontra a seu modo numa transição. Que quero dizer com isto? É que, por um lado, há qualquer coisa no plano dos percursos dos grandes ‘temas’ do pensamento que me parece processar-se por nuances e ‘mediações’. Por outro, esses grandes temas configuram-se-nos excessivamente determinados, cristalizados em datas e autores. Não vou mais longe: Quais as mediações? Quais as diferenças? Como se joga isto? Terá isto sido suficientemente pensado? Essa não será, talvez, uma das muitas razões pelas quais Heidegger nos fala do "esquecimento do sentido do ser" na tradição do pensamento Europeu? Sob um outro ponto de vista, também o Aristóteles e o Platão - e na linha do que o Fernando Belo indicou – se encontram na abertura para o advento do lekton embora este a eles (às suas linhas de pensamento) se lhes contraponha de alguma maneira – segundo me pareceu quando li o seu e-mail. Também estes processos de nuances e demarcações parecem operar-se com o nominalismo e a 'ideia' em Descartes. O que me parece também curioso é que na linha da ‘ideia’ de Descartes, já muitíssimo abstracta – se não estou em erro - e derivada daquele ‘mesmo’ ‘de’ que se tem vindo a falar, vai outra, que tem a ver com o advento da instrumentalização da técnica e da ciência, que desponta, por exemplo com o telescópio de Galileu, o qual dizia que o “Universo se encontra inscrito em linguagem matemática”.
Não sei se me desviei demais. Este texto acabou por ser escrito quase de uma vez. Enfim, tentou-se articular o tempo da demora com o tempo da espontaneidade e da intuição. Talvez para a próxima retome outros temas que me interessam nalguns dos seus livros.
"As coisas belas são difíceis, quando se trata de aprender" (Platão, Crátilo, 384b, Rep.) diria Carlos Silva no seu jeito especial de nos iniciar nos gregos. A propósito dos gregos, de entre outros episódios, lembro por exemplo este com o Carlos Silva: Um dia, ao fim de uma aula perguntei-lhe: "A questão da linguagem é muito importante na filosofia, não é?" Respondeu: "Sim. É muito importante." Perguntei-lhe em seguida: "Então é por isso que neste século (XX) a filosofia se debruça tanto sobre a linguagem?" Respondeu: "Não. Leia Platão."
Por outros bons motivos poderia evocar mais nomes. Fica para outra ocasião.
* Versão livre e citada de memória por L.T.
1/11/2009
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F.B. : O problema com o Parménides, e portanto com as traduções, é que cada um lê nele a 'sua' filosofia. Uma das minhas ideias mais caras: a invenção da definição por Sócrates, Platão e Aristóteles é também a invenção do que chamamos filosofia no Ocidente, na Europa, e Parménides é-lhe anterior, o que assinala a complicação.
Primeiro ponto. Tanto quanto consegui perceber numa leitura seguida de Platão feita há alguns anos (está em philoavecsciences2.blogspot.com), a primeira vez em que o nome de Parménides aparece é justamente no texto assim chamado. A seguir, Teeteto, Sofista e Político (supostos passados em dias a seguir, isto é, fazendo sequência), os 2 primeiros referem-se a esse texto, que portanto lhes é anterior. E no segundo dá-se o 'parricídio' de Parménides. Ora, a 2ª parte do Parménides é respondida por um 'Aristóteles', com uma referência espantosa na 1ª parte à precocidade filosófica de Sócrates a querer definir o belo, o justo, o bom (obviamente trata-se de Platão, não de Sócrates), pensei nisso ao ouvir-te discutir o outro dia aqui mesmo com o nosso amigo Aristóteles (135d). Isto é, a discussão crítica dos Eidê ou Formas ideais que veio antes resultou da entrada de Aristóteles na Academia e das discussões entre ambos. Donde o volte face de Platão em seguida, os seus textos podendo ser lidos como uma aproximação às questões que Aristóteles desenvolverá, que ele veio a formular a partir destas propostas de Platão. Ora bem, porque é que Parménides nunca fora nomeado e depois foi 'parricidado'? Só vejo uma hipótese: apesar de ter sido um tempo discípulo do heracliteano Crátilo na sua juventude, todo o desenvolvimento dos diálogos platónicos até aqui se fizeram numa matriz parmenidiana que nem sequer precisava de ser nomeada, tão assumida era.
Segundo ponto. Então como interpretar Parménides, o seu 'mesmo' do legein, noein, einai? Como qualquer coisa que a definição e a tradução para outras línguas vieram 'separar', que estava unido (o mesmo). Na minha leitura, algo a que Heidegger e Derrida voltaram, mas que a filosofia europeia sempre ignorou, já que separou os três (como a teoria clássica do 'signo' mostra bem, e que o nominalismo consagrou). Mas Platão e Aristóteles, que só sabem grego e não traduzem (como os Estoicos farão, o seu fundador, Zenão de Cítio, era bilingue, aprendeu grego na escola), não separam ainda (o parricídio tem a ver com outra coisa), é o que mostra a citação do Sofista que você me trouxe da primeira vez (discurso e pensamento não se separam, são o mesmo), e em que eu me esqueci dum pedacinho, bem como uma outra lá perto (262e) em que diz que o discurso (o logos) não pode ser sobre 'nada', isto é logos e ser não se separam, como não logos e dianoia. Em Aristóteles, a não separação é visível na definição 'zôon echon logon', o vivo ou animal com discurso que Cícero traduziu 'separando' discurso e razão, bem como na primeira e segunda ousia das Categorias, que foram traduzidas em latim por substância e essência respectivamente (e que os 'realistas' medievais ainda juntavam, os nominalistas separaram).
3/11/2009

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Imagem: pintura - obra plástica de Luís de Barreiros Tavares

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