quarta-feira, 25 de julho de 2012

100. Duas notas a propósito de questões das duas mensagens anteriores. Nada, diferença e Ser - Heidegger




L.T. : Gostaria de deixar só duas notas a propósito das questões anteriores:

1. Platão nessa citação (Sofista 263e) usa, por um lado, o mesmo termo, pensamento (dianoia) enquanto o mesmo (tauton) que discurso (logos), e por outro, o mesmo que o diálogo (diálogos) interior (entós) e em silêncio (aneu phonês) que a alma tem consigo mesma (auton), estabelecendo no entanto diferença. A questão da mesmidade parece-me importante neste passo, mas a questão do dia de dia-logos no jogo com o dia de dia-noia também.
O que me parece interessante é a relação entre o 'dia' de diá-logos como pensamento (dianoia) e o 'dia' de pensamento (dianoia) como discurso (logos).

2. "Or, ces phonèmes et ces lettres sont retirés strictement de la scène du sens de la communication, d'eux mêmes ils ne veulent rien dire, ne sont non plus image de rien (...)" (La philosophie avec sciences, § 35).
a) Eu estaria tentado a dizer que a afirmação "não são imagem de nada", implicando também "não quererem dizer nada", marca-se já enquanto imagem de alguma coisa, de algo. Porquê? Porque se emprega o termo, a palavra 'imagem'. Embora esta observação remeta para questões metalinguísticas como já tiveste oportunidade de chamar a atenção noutro momento deste blogue.
b) Mas a par disso, no 'imagem de', o 'de', a preposição 'de', seja no sentido predicativo (lógico) ou não - sem esquecer a questão semântica (significação, sentido) para ambas as alíneas - não relevará já de 'imagem de algo' e ao mesmo tempo de 'algo de imagem'? Não haverá algo de imagem na linguagem verbal, embora ambas não sejam a mesma coisa?
Questões que aparecem agora mais claras e que estou em crer algumas pessoas gostariam de colocar-te mais ou menos assim...

25/07/2012

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F.B. : Creio que a tua dificuldade tem a ver com a noção de 'diferença'. A diferença, entre duas côres, duas mesas, etc., não é nada, nem cor nem mesa, nem visível nem audível, não sensível. Por isso não é silêncio, nada a ver: silêncio é não som, não voz.
Se olhares para o Heidegger, ajuda a perceber que a diferença ontológica, entre o Ser e o ente, não é um ente (nem som nem voz nem cor nem mesa), isto é, o Ser é a diferença, que ele dirá 'nada'. Nada de ente, de substância. Portanto diferente de 'ente', o Ser. Está longe de ser evidente.
Aqui é o semelhante: a diferença entre sons ou letras não é 'nada', é o significante. Não apenas o fonema e a letra, mas também a palavra, a frase, o texto. A mesma frase do início dos Lusíadas em várias tipografias ou na letra dum aluno de liceu: são sempre empiricamente diferentes, mas lemos sempre a mesma frase nas diferentes grafias. Porque as diferenças entre as letras de uma tipografia (as / armas / e / os / varões) são as mesmas entre elas do que são noutra tipografia (as / armas / e / os / varões), ou noutra (as / armas / e / os / varões). Transpõe este exemplo para uma voz aguda, outra grave, outra infantil, outra tremida de velhote, e tens o mesmo exemplo.
É este nada - diferença que permite que nos entendamos com vozes e letras diferentes, aprendemos a ouvir vozes diferentes e entender as mesmas palavras, a ler grafias diferentes e entender as mesmas palavras. Foi para atingir este 'nada' que Derrida recorreu à redução do Husserl, o nível 'transcendental' sendo a única maneira de evitar o empirismo (que só vê sons); depois, rasurou essa passagem que faria do rasto, da différance, um eidos, por exemplo, e ficou apenas com a diferença nada, mas com o tempo ('a') e a estrutura da relação ao outro (que é a linguagem aprendida dos outros). Mais uma vez, não é evidente, percebo que tenhas dificuldade.
Não tem nada a ver com silêncio, que é ausência de substância, não diferença. Em Platão: dia-logos: de logos para outro logos, através (dia); dia-noia, de nous para outro nous da mesma alma. A diferença entre ambos é um ser com voz e o outro sem voz, em silêncio interior; o mesmo: Platão não nega que o pensamento seja de palavras e frases, de sintaxe, etc, embora não fale nisso (nem tinha ainda gramática de jeito; é nesse mesmo Sofista que pela primeira vez, nos textos que temos, aparece a distinção nome / verbo). Nada a ver com fonemas, palavras, significantes.

25/07/2012

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

99. Aneu phonês - Platão, Sofista, 263e




L.T. : Não esquecendo por exemplo os §§ 35-38 do Filosofia com ciências no séc.XX. Não pretendendo separar 'fonema' de 'letra', por uma questão de etapas, a minha análise vai aqui mais no sentido da questão do fonema do que da letra. Ver mensagem 2 com a pergunta inicial do bLogos. Ver também 88 e 89.
Embora já tenhas analisado estas questões, gostaria de reformulá-las. Sendo os fonemas unidades discretas (designação pouco usual nos teus textos, creio), "não querendo dizer nada nem sendo imagens de nada" (op.cit., §35), por si mesmas, eu diria, como os distingues, então, do aneu phonês (Platão, Sofista, 263e), não só em termos de inteligibilidade - que com ela não têm que ver, como mostras (idem, § 38) - mas principalmente em termos de silêncio, do sem voz, que é o que me interessa de momento? É que, segundo me parece, os fonemas apesar de serem da ordem da voz e da fala (tal como as letras são da ordem da escrita), não são propriamente voz, ou som. Pois eles são sempre nas suas diferenças na fala. A saber, não são voz nem som. Daí terem uma componente de silêncio, de sem voz, me parece.
Por assim dizer, não me refiro só ao 'imagem de nada' nem ao 'não quererem dizer nada' (não significam nada, podendo assim remeter para a tal confusão com o plano do inteligível, quer dizer, de uma pretensa hierarquia de significação superior) nem ao sensível (idem, § 38). Mas sim, refiro-me ao âmbito da voz, do som, da fala (embora não se deva confundir 'som' com' voz' e 'fala', mas tu saberás isto muito melhor do que eu). Não pretendia aqui estender a questão preferencialmente para o Fedro de Platão (274b-275c) para não complexificar ainda mais estas dificuldades que sinceramente para mim ainda são muitas. Basta-me por agora perguntar-te segundo o famoso passo que referi do Sofista de Platão, e que tem sido motivo importante neste bLogos. Mas se achares necessário analisar segundo a famosa história egípcia em Tebas, de Teuth e Thamus no Fedro, a par da extraordinária leitura do cap. "La pharmacie de Platon" no La dissemination do Derrida, por mim tudo bem.
Mas não deixo de perguntar-te, debruçando a análise no aneu phonês, como entendes que se poderá enquadrar estas questões no âmbito do que Derrida pretende desconstruir como fonocentrismo e logocentrismo na tradição da metafísica ocidental europeia?
No entanto preferia que a questão fosse agora mais nesta linha, sem esquecer a anterior, se assim achares: Partindo do pressuposto, se assim se pode dizer, de que o fonema - unidade discreta - não é propriamente voz, mas da ordem da voz, da fala, e tendo por conseguinte a componente do 'silêncio' e do 'sem voz' enquanto estruturais, como diferenciá-la do aneu phonês ventilado por Platão?

23/07/2012

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F.B. : O "sem voz" do Sofista implica que a dianoia (pensamento da alma consigo mesma) não se ouve de fora, como sucede ao logos (discurso com voz), por um lado, mas por outro Platão diz que são o mesmo (tauton, salvo erro), pensamento e discurso. Foi este 'mesmo' que me interessou, o que penso ser o parmenidianismo de Platão (como o mesmo termo ousia em Aristóteles, que os latinos traduziram por substância, a primeira, e essência, a segunda). E a ti interessa-te em que é que são diferentes: o 'sem voz' diz a separação dentro / fora, interior (alma) e exterior (corpo, voz) em Platão, e como a alma é o correlato dos Eidê celestes, as Formas ideais, a dianoia releva do inteligível (como a alma, incorruptível, imortal, divina nisso), a voz do sensível, como o corpo. O 'silêncio' do pensamento da alma teve larga descendência, mística e não só.
Ora, é o privilégio da voz, como perto da alma, em relação à escrita (mortal, sobrevive a quem escreve), que Derrida chamou logocentrismo: não apenas o inteligível (o pensamento, o teu silêncio, tudo isso, claro), mas também o discurso. Se se relesse o Crátilo, poder-se-ia ver se Platão considera ou não o fonema como significando qualquer coisa (na Poética, cap. 20, elemento - stoicheion -, claramente que não), julgo que não; mas joga na sua relação com a palavra, num sentido perto do 'arbitráro' do signo: será este que desqualifica a língua (grega, única que conta para ele) para o conhecimento e o leva a propor pela primeira vez a hipótese (veio-lhe como um sonho) das Formas ideais. Mas tanto num como noutro, o fonema é 'positivo', da ordem do sonoro, apesar do 'sem voz' e não da diferença, que é a grande descoberta de Saussure: "na língua não há senão diferenças, sem termos positivos". O exemplo que eu dava nas aulas era o seguinte: se cada aluno disser a mesma frase em suas vozes diferentes empiricamente, só se trata da 'mesma' frase porque as diferenças de sons elementares em cada voz são as mesmas do que nos outros: a essas diferenças o Saussure chamou fonemas. Derrida com ele: aplicou a esta diferença entre o plano dos sons, das vozes, e o plano dos fonemas ('significante') a redução fenomenológica do Husserl, aqueles, empíricos, são reduzidos, estes, puramente diferenciais, 'nada' (diria Heidegger) de 'substância, de sensível. Não necessariamente 'silêncio', já se viu.


24/07/2012


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 Imagem: desenho montagem digital - obra plástica de Luís de Barreiros Tavares
Vídeo de instalação de Luís de Barreiros Tavares

quarta-feira, 18 de julho de 2012

98. Abstracções flutuantes - Abstrac­tions flottantes




L.T. :
Porque é que se filosofa muitas vezes num certo pensamento dialéctico pressupondo-se 'separação' como podendo ser 'união' e vice-versa num certo regime de sentido para outro plano? Quem diz 'união' e 'separação' - reenviando para uma linhagem heraclitiana (tensão dos opostos; harmonia dos contrários, arco e lira - àrmoníê, fr. 51) tendo Hegel como seu momento alto no plano especulativo - diz, por exemplo, 'unidade' e diversidade'. Ora, Morin fala-nos da unidade na diversidade (ou multiplicidade) e da diversidade (multiplicidade) na unidade (unitas multiplex). Escrevi a frase anterior de memória quando já não lia a seguinte passagem há um bom par de anos. Fui consultar agora o livro: "o paradigma da simplificação não permite pensar a unidade na diversidade ou a diversidade na unidade, a unitas multiplex só permite ver unidades abstractas ou diversidades também abstractas, porque não coordenadas" (Edgar Morin, O problema epistemológico da complexidade) [sublinhei]. Só que, se me é permitida esta observação, até que ponto esta análise de Morin, que muito admiro, não poderá recair também já num certo abstracto especulativo? Não pretendo ser mais um filósofo da suspeita. Mas, não é por acaso que Morin é um grande admirador de Hegel e Heraclito. Morin dá importância também no seu pensamento complexo às "relações complementares, concorrentes e antagónicas", sem no entanto proceder ao aprofundamento de certos exames da linguagem numa certa perspectiva, pelo menos, como já tive a oportunidade de dizer noutra mensagem do bLogos. Mas para usar uma expressão tua num texto, o que me espanta às vezes é o "diálogo de surdos" que mesmo os chamados grandes intelectuais nele incorrem: considerarem-se por vezes entre eles, quando se opõem nas suas posições teóricas, o mesmo (usando o mesmo termo) como sendo o diverso, outro, sem darem por isso. Dou um exemplo, empregando o termo 'especulativo' como mesmo para x e y: "x considera y especulativo e reciprocamente." Não é Heidegger que na Carta sobre o Humanismo escreve a dado passo (escrevo de cor, não tenho o texto à mão): "entre pensadores a disputa amorosa da mesma questão"?
Voltando a Morin (que Sloterdijk destaca em Se a Europa Acordar - E. Morin, Pensar a Europa), estive no outro dia a ouvi-lo numa entrevista, e é interessante que aí ele diz mais ou menos o seguinte a propósito do homo sapiens-demens no Paradigma Perdido que li há mais de 25, o que para mim é muito, dada a minha idade: o homem para organizar racionalmente no caos faz um trabalho de loucura. O que ele quer dizer é que há demens no sapiens, há irracional no racional, o que leva a supor a reciprocidade, racional no irracional. É curioso que tu próprio me disseste há tempos que o lançares-te àquele teu empreendimento do Jeu des sciences foi uma certa loucura ("só um louco!"). Mas voltando a Morin, ele diz também na entrevista que há assim dois tipos de loucura (demens). O que leva a depreender, por outro lado, dois tipos de razão, articulando estas instâncias de modo complexo. Não diria simétrico. Não aponta Morin aqui para o sentido de um quatro, digamos que um quatro em aberto? Creio que Morin aqui traz qualquer coisa de novo. Isto parece-me interessante. O que é interessante ainda é que o homem actual no seu estado de evolução se auto-designa sapiens sapiens...
Só um aparte: Não estará a humanidade hoje mais do que nunca a informar-se a si mesma desde a actualização permanente, imediata e total ou quase da informação mediática - electrónica da velocidade da luz através da técnica - até à informação do genoma que também não dispensa a técnica, por exemplo?

Voltando à questão. De uma maneira geral porque é que se considera a vertente dialéctica especulativa do pensamento de linhagem dita heraclitiana (logos, polemos; sunpheromenon e diapheromenon fr.10, bem como "a natureza ama o seu retirar-se", etc.) que supostamente pretende pensar os contrários na tensão da união e separação, em oposição, todavia, à outra vertente de linhagem dita parmenidiana do 'um' (do noein, legein, einai, como gostas de dizer), do 'ser' e do 'mesmo' - que por seu turno nega também, opõe-se, eu diria, nega o não ser (o ser é e não pode não ser "... estin te kai ós oùk estin mê einai, fr.2), levando por exemplo à 'mesmidade', ao pensamento da diferença, etc. - que a ela, à outra vertente, no entanto, também se opõe?

17/07/2012

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F.B. : "Quand on est las des abstrac­tions flottantes qui, avant comme après Husserl, circulent sous l’étiquette de philo­so­phie (ou de sciences humaines) - that is the question! – ces abstractions qui auraient indigné Occam, re­tour­ner aux choses mêmes pour les décrire telles qu’elles se présen­tent, dans leur phénoménalité, c’est es­sayer une démarche d’ana­lyse ri­goureuse qui tienne compte en même temps et du “sens le plus gé­néral” et du “détail concret” du “donné”. "Quando se está farto das abstrações flutuantes que, antes como depois de Husserl, circulam sob a etiqueta de filosofia (ou de ciências humanas) - é essa a questão! - essas abstrações que teriam indignado Occam, voltar às próprias coisas para as descrever tal como elas se apresentam, na sua fenomenalidade, é tentar um caminho de análise rigorosa que tenha em conta quer o 'sentido mais geral' quer o 'detalhe concreto' do 'dado' ".
É uma citação do Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida (2. 2): eu não sei falar de abstrações flutuantes como as que a tua questão propõe; busco como fenomenologia, tanto filosofia como ciências, andar cerca dos fenómenos. Há inúmeros livros de filosofia que, a meus olhos de leitor, flutuam: creio que foi o ponto de partida de Husserl, o retorno às coisas, that is the question! Não creio que nem Heidegger nem Derrida, ambos tendo rompido com Husserl, cada um à sua maneira, neste ponto não creio que tenham rompido. O Ser e o Ereignis de Heidegger são sempre diferença (ontológica) com o ente; em Derrida, é a análise de textos que sempre norteia o que faz, nunca nenhum deles especula sobre temas flutuantes, é o que eu acho.

P. S. - Os 'diálogos de surdos', ainda que com os mesmos termos, relevam em geral de estes estarem organizados como paradigmas diferentes em cada (não) interlocutor.
Quanto ao Heraclito e o Parménides, são pensadores de antes da definição, de forma que nos é muito difícil de saber o que é que significam o que nos chegou deles, cada autor tem a sua interpretação, que depende do seu pensamento. O motivo do dizer-(que)-pensa-o-ser como sendo o mesmo, em Parménides, parece-me próprio de pensadores antes das separações vindas da definição (eidos, ousia, e por aí fora). Creio que também vale para Heraclito, mas este não o conheço nada, fora o que tu citas, o 123 da phusis que gosta de se esconder e a que o Heidegger deu um sentido fabuloso.

17/07/2012

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L.T. : Gosto dessa bravura sem papas na língua!
Deixo um passo de Aristóteles acerca da abstracção, separação - do grego aphairesis: "Pensamento (noesis) das coisas que estão incorporadas na matéria como se não estivessem" - (Aristóteles, De anima, III, 431b; vj. Peters, F.E., Termos filosóficos gregos, Gulbenkian).

21/07/2012


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Imagem: pintura - obra plástica de Luís de Barreiros Tavares
 

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terça-feira, 10 de julho de 2012

97. Uma questão simples




L.T. :Trago uma questão simples: O que é para ti o real?

Mas vou desenvolvê-la um pouco de modo livre.
Das leituras que tenho feito dos teus textos pode-se dizer que o modo como encaras o cristianismo tem muito a ver com o social, o político, o ético, o espiritual, enfim com as coisas dos homens na vida real adentro de uma certa perspectiva que caracteriza decisivamente a tua obra. Não por acaso o teu primeiro livro sobre o cristianismo se intitula, Leitura Materialista do Evangelho de Marcos, narrativa [récit]-prática-ideologia. Isto numa impressão e consideração um tanto superficial pois não é de imediato que se entram em abordagens de certas temáticas que implicam anos de estudo.
Mas estas considerações levam-me à primeira questão posta aqui, formulada no entanto de outra maneira, ou seja, as questões do real e da realidade parecem-me importantes nos teus estudos. As coisas, dos homens na Terra, a habitação, a alimentação, a gravitação, a inscrição, etc., são pensadas de forma singular alargando-se numa espécie de teia ou tessitura, ou a redes de estruturas e a planos que vão das ciências naturais e físicas, às sociais e humanas, à linguística e à filosofia, não esquecendo o cristianismo. A tua escrita e o modo como a tua obra se nos oferece, digamos, tem qualquer coisa de briquetage, usando uma expressão francesa. Mas eu diria uma briquetage dinâmica. Isto talvez não deixe de ser metafórico, mas digamos que o trabalho da tua obra e do teu pensamento faz-se numa espécie de jogo dos movimentos da briquetage, esse trabalho de tijolo, esse trabalho da terra, essa construção, comportando sem dúvida o teu interesse pela questão da physis que brota com Aristóteles. Este trabalho - implicando a escrita, a escrit-ura - em que o processo de construção permite acompanhar o modo de processo de desconstrução (pelo menos na sua possibilidade, i.é, de como se pode desconstruir, en train de se faire - na construção em curso - se assim se pode dizer). No respeitante aos teus textos, o pensamento não perde de vista as coisas da obra, e estas, por sua vez, não o perdem de vista. Temos uma leitura que não nos deixa perder no teorético, no especulativo, mas também não no mero empírico nem no objecto que fica do lado de lá relativamente a um suposto sujeito e vice-versa. Isto parece-me que implica novas reflexões sobre as questão do que se chama real e realidade, tendo estas duas noções as suas diferenças, como saberás melhor do que eu.
Posso estar enganado, mas retomando estes motivos, qualquer coisa da ordem do 'real' e da 'realidade' releva na tua obra, na tua produção textual. Mas a pergunta acaba por resumir-se assim: Como é que encaras as questões do real e da realidade na tua obra? Poderás dizer alguma coisa sobre o modo como pensas de maneira inovadora estas questões?
Pode parecer uma pergunta genérica, mas para mim pelo menos ajuda-me a entrar nos teus textos sobre cristianismo, p.ex., mesmo que em passos vacilantes.

09/07/2012


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F.B.: Real e realidade, do latim 'res', coisa. Curiosamente, também de 'res' veio 'rien', um dos contrários de real (em português, 'nada' vem do latim 'natus', o que nasceu, que virá da importância antiga da 'natureza', que é um outro nome filosófico da 'realidade').
No uso filosófico corrente, creio que significa o que não é linguagem, nem ficção, nem ideal, o que tem consistência, substância, resistência... Isto é, é um termo vago que se usa porque já ninguém usa 'ser' (excepto o Heidegger), o Fernando Gil até achava que não se devia ensinar o 'ser' na filosofia dos liceus, era vago e não servia para nada. Mas de vez enquanto o termo 'realidade' impõe-se nesta sua generalidade, e costumo fazer como o Derrida: 'a chamada realidade', pondo aspas para dizer que não se 'acredita' no termo (na oposição que ele tem a linguagem, pensamento), que ele é vago mas de vez em quando dá jeito.
Devo dizer que me faz alguma confusão o uso filosófico do termo 'coisa' (que na linguagem de todos os dias pode ser qualquer coisa, tudo) como se fosse 'ente' (étant).
Tudo isto para dizer que não é um dos meus motivos, mas o que me interessa na tua pergunta é: e o que é que eu proponho para substituir a 'realidade'? às vezes penso nisso assim: como o meu trabalho recente se reclama das ciências na sua dimensão filosófica, fui levado a propor quatro grandes cenas histórica: a da gravitação (astros, terra), a da alimentação (vivos, evolução), a da habitação (as sociedades humanas desde a pré-história) e a da inscrição (a história ocidental do saber filosófico e científico).
O problema da sua sucessão é que cada uma inclui as que se lhe seguem, que são parte dela e obedecem às suas regras, mas as novas introduzem novas regras de que as anteriores não sabiam nem compreendem, mas pode-se dizer que resultam de limitações das cenas anteriores que se excederam; por outro lado, as três últimas sendo exclusivamente terrestres, cada uma das novas tem incidências sobre as anteriores: a vida transformou o planeta terra, as sociedades humanas também e as ciências física-químicas ainda mais, como sabemos das técnicas. Isto significa que, as ciências sendo limitadas às respectivas cenas, encontram todavia os seus fenómenos próprios alterados por cenas que não relevam delas, tanto para cima como para baixo. No caso dos humanos, a complicação é que eles se partilham das quatro cenas, como lhes encontrar alguma unidade? Quer o 'sujeito' quer o 'Dasein' estão muito vinculados à cena da inscrição.
Há algo que é comum às quatro: em nenhuma das cenas há determinismos, todas elas, de maneiras muito diferentes, descobrem regras laboratorialmente que 'na chamada realidade', isto é, fora do laboratório, jogam consoante o aleatório das outras componentes das cenas (tal como um carro anda na estrada segundo regras científicas diversas mas em percursos aleatórios, consoante a sua direcção ou sentido e os outros que também circulam perto dele). O que pus em itálico mostra o meu problema: como caracterizar a realidade como o que é, na terra, a composição de quatro grandes cenas? Como o dizer de uma maneira certa, segura, interessante? Como é que nos seres vivos, nos humanos, as várias cenas se enxertam?
Já agora, este motivo de as regras corresponderem a aleatórios, que transforma completamente noções correntes de filosofia, sentido, liberdade, ciência, laboratório, redução, etc., motivo de que pouco temos falado neste bLogos, pedem a reformulação da filosofia das ciências que se faz para aí, que me parece muito pobre, muito dependente do que os cientistas acham que fazem, mas conheço mal, leio muito pouco sobre ela, é mais em conversas e artigos pequenos que se percebe isto que estou a dizer, continuam com sujeitos e objectos, ignoram a razão de ser do laboratório. Há alguns anos consultei um Dicionário de Filosofia das CIências dirigido pelo D. Lecourt e, num dicionário de há uns 8 ou 10 anos, não havia entrada para laboratório! Os cientistas continuam a pensar que o determinismo é o próprio das ciências deles. Também é certo que nessas Filosofia das CIências só se trata quase de Física, hoje há uma Filosofia da Biologia mas separada da da Física; em todos os casos, Linguísticas e CIências das sociedades não fazem parte.
Acho tudo isto muito 'real', isto é, corresponde verdadeiramente à chamada realidade.


10/07/2012

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Imagem: fotografia - obra plástica de Luís de Barreiros Tavares
 

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segunda-feira, 9 de julho de 2012

96. Interlúdio com Emmanuel Levinas 1. Être juif - 2. À propos de son histoire.




être juif

Link do vídeo:
Emmanuel Levinas : être juif
Sillages - 14/11/1976 - 15min45s


Françoise VERNY pose à Emmanuel LEVINAS, philosophe et juif, plusieurs questions sur l'identité juive : qu'est ce qu'être juif, la Terre Sainte, le peuple élu, la pratique religieuse, Auschwitz, l'Exode ou sortie d'Egypte et le Très Haut. Des images de synagogue, de juifs en prière, ou d'une femme préparant le pain de Shabbat illustrent les propos du philosophe. - Qu'est ce qu'être juif ? "...Des gens qui ont une conception rigoureuse du divin, se souviennent de ce qu'ils ont été et peut-être oublié. Ils comprennent le monde à partir de Dieu, de l'enseignement de la Bible..." - La terre sainte? "...La Bible nous enseigne une terre qui vomit ses habitants. Cette terre ne peut vous supporter que lorsque vous êtes fidèle à une certaine éthique et une certaine relation avec les autres hommes..."- Le peuple élu? "...C'est une élection de responsabilité et non de privilèges..."- La pratique religieuse? "...Intercaler entre chaque geste spontané quelque chose qui met le frein au naturel et me sort de mon existence naturelle pour m'introduire dans l'existence éthique (illustration des explications de LEVINAS avec les images d'une femme qui prépare de manière rituelle le pain de shabbat). La vie d'un juif est pleine d'arrêts dus à l'observance de la loi : la joie de la loi. Le drame juif, "l'impossibilité de l'idylle", les juifs l'ont revécu sous Hitler jusqu'au martyr et cela s'est accompli dans un monde qui avait abandonné les juifs et, sans espoir, ils pouvaient rester humains..."- Auschwitz? A provoqué toute une série de réactions, la plus connue étant l'athéisme. Dieu vivant est le Dieu qui souffre avec vous et vous a accompagné dans votre exil. La prière est ce partage de la souffrance avec quelqu'un d'autre..."- L'exode? La grande idée de l'exode et de la sortie d'Egypte est que le juif se sent comme un esclave affranchi. C'est la définition même du juif et on est alors d'emblée solidaire de tous les hommes.- Le très haut? "...La libération par le très haut ? "Je vous ai sorti d'Egypte pour être votre Dieu", pour servir l'absolu, être dans la main de Dieu..."
Production
producteur ou co-producteur:
Télévision Française 1
Générique
réalisateur:
Lilenstein, Nat
producteur:
Walter, Georges ; Verny, Françoise ; Frydland, Maurice
participant:
Levinas, Emmanuel







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Emmanuel Levinas à propos de son histoire

Link do vídeo:

- 17/10/1988 - 15min45s
Emmanuel LEVINAS relate les expériences d'ordre littéraire, spirituel ou historique qui fondèrent sa pensée philosophique, nous menant, au cours de cette première partie, de la Lituanie de son enfance jusqu'à la veille de la seconde guerre mondiale.
Production
producteur ou co-producteur:
Société d'édition et de programmes de télévision , Sodaperaga
Générique
réalisateur:
Boutang, Pierre André
journaliste:
Poirie, François
participant:
Levinas, Emmanuel


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l'Institut national de l'audiovisuel

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Imagens: obras plástica de Luís de Barreiros Tavares