quarta-feira, 18 de julho de 2012

98. Abstracções flutuantes - Abstrac­tions flottantes




L.T. :
Porque é que se filosofa muitas vezes num certo pensamento dialéctico pressupondo-se 'separação' como podendo ser 'união' e vice-versa num certo regime de sentido para outro plano? Quem diz 'união' e 'separação' - reenviando para uma linhagem heraclitiana (tensão dos opostos; harmonia dos contrários, arco e lira - àrmoníê, fr. 51) tendo Hegel como seu momento alto no plano especulativo - diz, por exemplo, 'unidade' e diversidade'. Ora, Morin fala-nos da unidade na diversidade (ou multiplicidade) e da diversidade (multiplicidade) na unidade (unitas multiplex). Escrevi a frase anterior de memória quando já não lia a seguinte passagem há um bom par de anos. Fui consultar agora o livro: "o paradigma da simplificação não permite pensar a unidade na diversidade ou a diversidade na unidade, a unitas multiplex só permite ver unidades abstractas ou diversidades também abstractas, porque não coordenadas" (Edgar Morin, O problema epistemológico da complexidade) [sublinhei]. Só que, se me é permitida esta observação, até que ponto esta análise de Morin, que muito admiro, não poderá recair também já num certo abstracto especulativo? Não pretendo ser mais um filósofo da suspeita. Mas, não é por acaso que Morin é um grande admirador de Hegel e Heraclito. Morin dá importância também no seu pensamento complexo às "relações complementares, concorrentes e antagónicas", sem no entanto proceder ao aprofundamento de certos exames da linguagem numa certa perspectiva, pelo menos, como já tive a oportunidade de dizer noutra mensagem do bLogos. Mas para usar uma expressão tua num texto, o que me espanta às vezes é o "diálogo de surdos" que mesmo os chamados grandes intelectuais nele incorrem: considerarem-se por vezes entre eles, quando se opõem nas suas posições teóricas, o mesmo (usando o mesmo termo) como sendo o diverso, outro, sem darem por isso. Dou um exemplo, empregando o termo 'especulativo' como mesmo para x e y: "x considera y especulativo e reciprocamente." Não é Heidegger que na Carta sobre o Humanismo escreve a dado passo (escrevo de cor, não tenho o texto à mão): "entre pensadores a disputa amorosa da mesma questão"?
Voltando a Morin (que Sloterdijk destaca em Se a Europa Acordar - E. Morin, Pensar a Europa), estive no outro dia a ouvi-lo numa entrevista, e é interessante que aí ele diz mais ou menos o seguinte a propósito do homo sapiens-demens no Paradigma Perdido que li há mais de 25, o que para mim é muito, dada a minha idade: o homem para organizar racionalmente no caos faz um trabalho de loucura. O que ele quer dizer é que há demens no sapiens, há irracional no racional, o que leva a supor a reciprocidade, racional no irracional. É curioso que tu próprio me disseste há tempos que o lançares-te àquele teu empreendimento do Jeu des sciences foi uma certa loucura ("só um louco!"). Mas voltando a Morin, ele diz também na entrevista que há assim dois tipos de loucura (demens). O que leva a depreender, por outro lado, dois tipos de razão, articulando estas instâncias de modo complexo. Não diria simétrico. Não aponta Morin aqui para o sentido de um quatro, digamos que um quatro em aberto? Creio que Morin aqui traz qualquer coisa de novo. Isto parece-me interessante. O que é interessante ainda é que o homem actual no seu estado de evolução se auto-designa sapiens sapiens...
Só um aparte: Não estará a humanidade hoje mais do que nunca a informar-se a si mesma desde a actualização permanente, imediata e total ou quase da informação mediática - electrónica da velocidade da luz através da técnica - até à informação do genoma que também não dispensa a técnica, por exemplo?

Voltando à questão. De uma maneira geral porque é que se considera a vertente dialéctica especulativa do pensamento de linhagem dita heraclitiana (logos, polemos; sunpheromenon e diapheromenon fr.10, bem como "a natureza ama o seu retirar-se", etc.) que supostamente pretende pensar os contrários na tensão da união e separação, em oposição, todavia, à outra vertente de linhagem dita parmenidiana do 'um' (do noein, legein, einai, como gostas de dizer), do 'ser' e do 'mesmo' - que por seu turno nega também, opõe-se, eu diria, nega o não ser (o ser é e não pode não ser "... estin te kai ós oùk estin mê einai, fr.2), levando por exemplo à 'mesmidade', ao pensamento da diferença, etc. - que a ela, à outra vertente, no entanto, também se opõe?

17/07/2012

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F.B. : "Quand on est las des abstrac­tions flottantes qui, avant comme après Husserl, circulent sous l’étiquette de philo­so­phie (ou de sciences humaines) - that is the question! – ces abstractions qui auraient indigné Occam, re­tour­ner aux choses mêmes pour les décrire telles qu’elles se présen­tent, dans leur phénoménalité, c’est es­sayer une démarche d’ana­lyse ri­goureuse qui tienne compte en même temps et du “sens le plus gé­néral” et du “détail concret” du “donné”. "Quando se está farto das abstrações flutuantes que, antes como depois de Husserl, circulam sob a etiqueta de filosofia (ou de ciências humanas) - é essa a questão! - essas abstrações que teriam indignado Occam, voltar às próprias coisas para as descrever tal como elas se apresentam, na sua fenomenalidade, é tentar um caminho de análise rigorosa que tenha em conta quer o 'sentido mais geral' quer o 'detalhe concreto' do 'dado' ".
É uma citação do Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida (2. 2): eu não sei falar de abstrações flutuantes como as que a tua questão propõe; busco como fenomenologia, tanto filosofia como ciências, andar cerca dos fenómenos. Há inúmeros livros de filosofia que, a meus olhos de leitor, flutuam: creio que foi o ponto de partida de Husserl, o retorno às coisas, that is the question! Não creio que nem Heidegger nem Derrida, ambos tendo rompido com Husserl, cada um à sua maneira, neste ponto não creio que tenham rompido. O Ser e o Ereignis de Heidegger são sempre diferença (ontológica) com o ente; em Derrida, é a análise de textos que sempre norteia o que faz, nunca nenhum deles especula sobre temas flutuantes, é o que eu acho.

P. S. - Os 'diálogos de surdos', ainda que com os mesmos termos, relevam em geral de estes estarem organizados como paradigmas diferentes em cada (não) interlocutor.
Quanto ao Heraclito e o Parménides, são pensadores de antes da definição, de forma que nos é muito difícil de saber o que é que significam o que nos chegou deles, cada autor tem a sua interpretação, que depende do seu pensamento. O motivo do dizer-(que)-pensa-o-ser como sendo o mesmo, em Parménides, parece-me próprio de pensadores antes das separações vindas da definição (eidos, ousia, e por aí fora). Creio que também vale para Heraclito, mas este não o conheço nada, fora o que tu citas, o 123 da phusis que gosta de se esconder e a que o Heidegger deu um sentido fabuloso.

17/07/2012

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L.T. : Gosto dessa bravura sem papas na língua!
Deixo um passo de Aristóteles acerca da abstracção, separação - do grego aphairesis: "Pensamento (noesis) das coisas que estão incorporadas na matéria como se não estivessem" - (Aristóteles, De anima, III, 431b; vj. Peters, F.E., Termos filosóficos gregos, Gulbenkian).

21/07/2012


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Imagem: pintura - obra plástica de Luís de Barreiros Tavares
 

Vídeo para instalação de Luís de Barreiros Tavares

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