quarta-feira, 4 de julho de 2012

95. Cristianismo sim, mas devagar... Bíblia hebraica, Bíblia cristã. O político, o religioso, o ético, o espiritual, etc.




No dia da descoberta científica do bosão de Higgs, a chamada "partícula de Deus" !?.....

L.T. : Não sei nada disto. Mas vou em frente.
Estava eu na esplanada de manhã consultando o interessante A escrita do livro (Vega, 1993) da Maria Augusta Babo, e eis que nas primeiras páginas dou com a palavra 'Bíblia'. Não sei se tens este livro. Cito: "A figura do livro desde sempre ocupou um lugar preponderante no modo de aceder ao texto, nomeadamente ao texto sagrado, mas também à natureza, dada a ler como um livro cujo autor seria Deus. Ambos os livros, a Bíblia e o Livro da Natureza, constituem a matéria da grande metáfora que invadiu o pensamento ocidental e que é tema de "concordâncias e de discordâncias (2) (p.12)". Nota: "(2) Cf. o prefácio de R. Bodei à tradução italiana de Blumenberg, La leggibiltà del mondo, Bologna, il Mulino, 1984, p.XIV, onde é atribuída a explicitação desta metáfora do livro, ao catalão Raimondo di Sabunda, em meados do século XV (p.27)". O que segue também é interessante.
Qual não foi a minha surpresa que me ocorreu uma pergunta a fazer-te. E escrevi. Uma pergunta ou perguntas básicas, próprias de um principiante como eu, se tanto, nestas coisas do cristianismo. Aqui vai ela:
A partir de que nível de investigação se impõe a distinção entre Bíblia hebraica e Bíblia cristã, esta com a referência ao "Antigo Testamento"? "Do ponto de vista da interpretação de textos, do que se chama hermenêutica, é um fenómeno espectacular: as mesmas letras da Bíblia hebraica tornam-se noutro texto no Antigo Testamento da Bíblia cristã..." (ver mensagem 90). E como é que isto se joga, pois ainda me escapa muito? É necessário estar já num plano de investigação que exige uma certa especialidade teológica, hermenêutica, exegética, cristológica, que sei eu?, enfim bíblica? É que é frequente lermos a palavra 'Bíblia', sem mais, em estudos cujas questões centrais não são essas, como é o caso de A escrita do livro, embora as aborde. Não estou a fazer uma crítica negativa a este livro relativamente a esta questão. Mas porquê então um certo sentido generalizado do termo 'Bíblia' que todos mais ou menos praticamos de quando em vez? Evidente que segundo os entendidos nestas matérias estas questões são temas estudados.
Mas, a pergunta que faço é qual o limiar e quando é que aqueles critérios distintivos devem aparecer? A generalização que referi atravessa também estudos mais especializados? Não sei.
Creio que poderás dizer-me alguma coisa sobre estes pontos.
Pondo a questão de outra maneira. Porquê a designação genérica 'Bíblia', se assim se pode dizer, uma vez que eu próprio a tenho usado até à data? E no entanto, mais ou menos começo a compreender a necessidade de um certo cuidado no seu uso em certos contextos, como seja nalguns dos teus textos sobre o cristianismo neste blogue. Pelo que tenho compreendido nas minhas possibilidades, estas questões são cruciais nos teus estudos sobre o cristianismo.
Quando se fala por exemplo de Bíblia hebraica e de Bíblia cristã dá a ideia que quase se pode falar de Bíblias, sabendo-se no entanto que 'Bíblia' já remete por si só para o plural grego Ta biblia (= os livros - os textos escritos em caniço de Biblos; vj. Dicionário enciclopédico da Bíblia, org. Dr. A. Van Den Born, Petrópolis, Vozes, 1985).
Pode-se ir por aqui? É que para muita gente menos avisada, como eu, isto pode produzir equívocos ou insuficiente compreensão.
04/07/2012

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F.B. : "A partir de que nível de investigação se impõe a distinção entre Bíblia hebraica e Bíblia cristã, esta com a referência ao "Antigo Testamento"?", perguntas. Para um Judeu, não há nenhuma dúvida entre a Bíblia, que é a dele, e a cristã, que se apoderou também da dele, mas, acrescento eu, não abusivamente, porque os cristãos que o fizeram também eram judeus. É para os cristãos que o problema se põe, porque têm a ideia duma bíblia com duas partes, o antigo e o novo testamento, o primeiro sendo também dos judeus. Era também a minha ideia há uns 20 anos a esta parte, quando retomei estas questões (aliás na altura, só a Bíblia hebraica). O ponto para mim é o da dimensão política da coisa (a citação que fiz: o judaísmo não é uma religião, é um povo), quando qualquer pessoa, crente ou não, te dirá que a Bíblia, qualquer delas, é um livro religioso, fala-se até de religiões do livro. Mas a separação entre religião e política é relativamente recente, estas duas dimensões sociais andaram sempre juntas, os Profetas hebreus como Jesus também questionando os poderes políticos que eram também religiosos a partir do que se deve chamar 'espiritual' (implicando ruptura ética com a tribo, a chamada 'conversão'), enquanto que o religioso era holístico, engloba toda a gente da tribo, como foi o cristianismo no Ocidente a partir da Alta Idade Média, no catolicismo até há um ou dois séculos (e também no protestantismo europeu).

04/07/2012

F.B. : Ora, tanto o catolicismo como o protestantismo como o judaismo, religiões holísticas, foram atravessados durante a sua história por inúmeros movimentos espirituais, muito diversos, fortemente críticos da estrutura religiosa-política. São estes movimentos que são interessantes nos cristianismos, não as estruturas eclesiásticas tipo Vaticano, dioceses com bispos, etc.

05/07/2012


L.T. : Obrigado.

05/07/2012

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Imagem: obra plástica de Luís de Barreiros Tavares
 

Vídeo para instalação de Luís de Barreiros Tavares

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