domingo, 9 de dezembro de 2012

125. Definição, horizonte e etimologias









L.T. : Como vês a questão da 'definição' etimologicamente (horismós - transcrição fonética em Peters) sendo que esta tem a mesma raiz que a de 'horizonte' (ourikzon, ontos), a qual é hóros (termo, limite...)? Porque é que faço esta pergunta? É que, conforme explicitas, a definição não é o mesmo que horizonte, sendo que a primeira é precedida, segundo Heidegger, de horizonte remetendo para os pré-socráticos, o "antes da definição", como dizes, para o qual ele reenvia, pois a definição e sua invenção decorre de Sócrates, Platão, culminando em Aristóteles, conforme fazes questão de explicitar nos teus textos, mais do que Heidegger, que se voltou para a questão de horizonte, quando, pela tua parte, parece-me que procedes a uma reflexão complexa quanto a essas duas questões, sem abdicar particularmente de nenhuma. Ora, essa parece-me ser uma das dificuldades, tanto para a perspectiva de Heidegger como para a tua leitura, partindo do que indiquei acima quanto às etimologias. Mas não posso desenvolver muito isto, da questão do horizonte, do Ser, do Nada, Ereignis e por diante (Heidegger), da confrontação com Husserl, como se pode ler e compreender melhor, por exemplo, no teu livro Heidegger, pensador da terra. Dou conta que faltam aqui alguns dados, mas a ideia é a de não dispersar relativamente à questão que me interessa de momento. Talvez com a tua resposta possas clarificar um pouco estas questões a par da que coloco aqui, nomeadamente, a etimológica.
Pode haver aqui falhas temáticas e imprecisões de leitura da minha parte, pois escrevi isto agora, apesar de ter consultado para este efeito há dias a Metafísica do Aristóteles, o Termos Filosóficos Gregos do Peters e o teu livro sobre o Heidegger. E creio também que não interessa agora estar a explanar o que escreveste. Vou ver depois melhor as transcrições fonéticas do grego para estes termos. Agora vai assim.


08/12/2012


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F.B. : Horismos, definição, horizôn, horizonte. Trata-se da mesma raiz semântica, ambas as palavras dizem limite, termo, como dizes. A dizer verdade, eu enganei-me quando descobri o horismos e o liguei a oros, monte (palavra que conhecia de Marcos), sem na altura me ter dado conta de que este tem um espírito doce (sem h) e a definição um espírito rude (h). O que me atraíu nessa aproximação, foi continuar na pista de J.-P. Vernant e querer acrescentar às delimitações antropológicas muito marcadas dos Gregos (parentesco, cidadania), a paisagem física de montanhas que isolam as cidades que mais facilmente se frequentam por mar do que por terra: delimitadas pois, cidades-estado como se diz (um meteca é um grego de outra cidade, Aristóteles era meteca em Atenas). Quis pois ligar o monte ao horizonte. Não faço ideia se a diferença dos espíritos é susceptível de cortar relações etimológicas (é provável, se for como uma 'letra').
Seja como for, ainda que oros não seja parente de horismos, a relação é válida, creio, já que nessa paisagem são as montanhas que se impõem como horizonte, como limite daquilo que se vê. Só que este limite existe apenas para o sedentário, se se sobe à montanha o horizonte desdobra-se, alonga-se, é sua característica dar-se à vista como seu limite mas ser inacessível aos pés que se queiram aproximar. O que é curioso, é que os Chineses segundo F. Jullien, que ignoram a definição, têm por assim dizer a sua visão do mundo a partir do horizonte mas incluindo o Céu também, não apenas a Terra: vêem o global antes do local, ou melhor, pensam o local inscrevendo-o no global. Ora, o Geviert do Heidegger vai nessa direcção, parece, o que sugere uma leitura do Ereignis porventura mais fina, mais pro-chinesa.



09/12/2012

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