domingo, 5 de agosto de 2012

102. Ainda sobre ética




L.T. :
1.
Muito por alto e provavelmente com algumas imprecisões, sobre a katharsis (purgação, purificação) só sei que tem a ver com phobos (temor) e éleos (piedade) como instâncias por que passam os espectadores - público, assistência - (aqui talvez entre também a mimesis, que é aliás referida por Aristóteles juntamente com os outros dois termos em Poética, 1449b-1450a. O espectador passa assim por estas instâncias transitoriamente como formas de transformação e ‘purgação’ preparativas para reentrar na polis. Creio que neste processo está também em jogo a ética segundo a abordagem que fizeste sobre a Poética no teu último e-mail. Li há muito tempo o António Freire que tem uns textos interessantes sobre estas questões.


Sobre a citação de Cristina Beckert na mensagem anterior. O que me parece interessante aqui é que sendo êthos (ἦθος) com sentido mais arcaico, digamos (“caverna, morada, local de habitação”) - mais originário a julgar pelo critério semântico, embora mais tarde signifique “maneira de estar ou de ser, carácter” -, ele derive, todavia, de éthos (ἕθος - “costume, hábito”; mas que também deriva de estábulo, segundo disseste), o qual por seu turno é o que irá dar origem ao sentido de moral que, se bem entendi, é posterior, ou pelo menos vai no sentido da latinização da moral a partir de mos “para designar tanto éthos como êthos”.


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2. Entretanto, contactei a Profª Cristina Beckert sobre algumas dúvidas num ou noutro ponto.
Alguns dados e textos que lhe enviei:

"La vertu apparaît sous un double aspect, l'un intellectuel, l'autre moral (ἠθιxῆς) ; la vertu intellectuel provient en majeure partie de l'instruction, dont elle a besoin pour se manifester et se développer; aussi exige-t-elle de la pratique et du temps, tandis que la vertu morale (ἠθιxὴ) est fille des bonnes habitudes (ἔθους); de lá vient que, par un léger changement, du terme moeurs sort le terme moral (ἔθους)44."
44 ῞Eθος, coutume, usage, habitude; ἦθος manière d'être, moeurs.

Aristote, Éthique de Nicomaque, Ed. bilingue, Trad. Jean Voilquin, Garnier.


Só disponho de momento desta edição bilingue de Ética a Nicómaco.
Não sei grego, mas conheço uma razoável terminologia filosófica do grego e um ou outro elemento gramatical.
O que me parece interessante aqui é que sendo êthos (ἦθος) com sentido mais arcaico, digamos (“caverna, morada, local de habitação”), mais originário a julgar pelo critério semântico, embora mais tarde signifique “maneira de estar ou de ser, carácter”, derive, todavia, de éthos (ἕθος - “costume, hábito”), o qual por seu turno é o que irá dar origem ao sentido de moral que, se bem entendi, é posterior, ou pelo menos vai no sentido da latinização da moral a partir de mos “para designar tanto éthos como êthos”. Daí, talvez, que qualquer coisa se tenha perdido pelo meio no respeitante à ética e à moral.

Depois também há a questão e os problemas da tradução. Jean Voilquin emprega várias vezes a palavra ‘moral’. Ora, como se viu, esta deriva do latim. Talvez sejam anacronismos a que às vezes não podemos escapar. Mas neste ponto não sei ir mais longe.

Mas não sei se estarei a colocar bem a questão. Saberá com certeza situar estas questões melhor do que eu...

5/08/2012
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Cristina Beckert: Em primeiro lugar, quero felicitá-lo pelos seus conhecimentos de grego, pois todos os casos que assinala no texto de Aristóteles estão correctíssimos.
Quanto às observações que faz, também considero que tem razão. De facto, na perspectiva de Aristóteles, éthos é mais arcaico que êthos, pois, para ele, este termo tem apenas o significado de carácter. Só quando Heidegger escreve a Carta sobre o Humanismo é que se procurou reabilitar o sentido originário da palavra, para designar uma postura não-humanista ou não-antropocêntrica da ética.
A tradução de Voilquin não é das melhores. Eu uso a tradução inglesa das obras completas da Loeb Classical, traduzida por Rackham, mas se prefere o francês, seria melhor consultar a tradução de Tricot, publicada na Vrin.
PS: quanto ao meu livro, posso apenas dizer-lhe que retomo a distinção entre ética e moral, mas desenvolvo-a a partir de dois autores contemporâneos: Wittgenstein e Ricoeur.
Cristina Beckert
12/08/2012

L.T. : Seria possível transcrever-me a versão inglesa do Rackham e/ou do Tricot daquelas linhas (apenas 4 ou 5 + -) que lhe enviei do início do livro II da Ética a Nicómaco?

Entretanto, encontrei uma edição inglesa: "Virtue, then, is of two kinds, intellectual and moral. Of these the intellectual is in the main indebted to teaching for its production and growth, and this calls for time and experience. Moral goodness, on the other hand, is the child of habit, from wich it has got is very name, ethics being derived from ethos, 'habit', by a slight alteration in the quantity of thee e."

The Ethics of Aristotle, The Nicomachean Ethics, translated by J.A.K. Thomson, London, Penguin Books Classics, 1955

19/08/2012

Cristina Beckert: Aqui vai a tradução do Rackham

"Virtue being, as we have seen, of two kinds, , intellectual and moral, intellectual virtue is for the most part both produced and increased by instruction, and therefore requires experience and time; whereas moral or ethical virtue is the product of habit (éthos), and has indeed derived its name, with a slight variaton of form, from that word."

29/08/2012




Imagem: obra plástica de Luís de Barreiros Tavares - 2012



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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

101. Um pouco de ética




L.T. : Só uma citação:
"Com efeito, a palavra ética vem do grego êthos [ἦθος], cujo significado primeiro é caverna, morada, local de habitação, e, mais tarde, maneira de estar ou de ser, carácter. O próprio termo êthos provém, por sua vez de éthos [ἕθος] que quer dizer costume, hábito, permitindo-nos compreender a evolução do sentido original da palavra em direcção a uma progressiva "moralização" da mesma.
Assim, e atendendo à etimologia grega, a ética aponta, antes de mais, para a interacção entre o homem e o mundo, ou seja, para um habitar mundano do homem, a partir da sua morada, da casa onde mora, com toda a carga simbólica que este termo comporta. Na verdade, a casa é "o primeiro mundo do ser humano", "um grande berço", onde "a vida começa bem, como encerrada, protegida, aconchegada [(1) G. Bachelard, La Poétique de L'espace, Paris, 1983], onde o caos se organiza em cosmos e a intimidade com o mundo se transforma progressivamente em interioridade, em espaço próprio e irredutível do homem, apropriando-se do seu agir."
(...)
"Na passagem do grego para o latim, verificamos a existência de um único termo, mos para designar tanto éthos [ἕθος] como êthos [ἦθος], o que ocasiona um considerável empobrecimento semântico da palavra moral. Na verdade, a fixação do sentido de mos, priva-o da referência ao habitar mundano e à morada (...)."

Cristina Beckert, Ética e Moral, in Noesis, 16, 1990.

Tendo em conta as etimologias de 'ética' (êthos - ἦθος; éthos - ἕθος) e as suas derivações para 'moral', gostaria que me dissesses como vês o lugar da ética nessa "narração (récit) duma prática" (récit: relação; narração de um facto - Dictionnaire Larousse de Poche), "histórias de homens", lutas reais de gentes (...) mesmo antagonistas" (Clévenot no Apostrophes sobre o teu livro Lecture Matérialiste de L'Évangile de Marc, récit, pratique et ideologie), supondo as diferenças e mesmo os antagonismos no plano dos usos, costumes, hábitos e também nas formas de habitar? Dando uma vista de olhos geral ao livro acima citado não encontrei abordagens à questão da 'ética', pelo menos no que concerne ao emprego do termo, salvo erro.

Pode-se falar de ética, e como, nos contextos da 'habitação' que tratas nos teus textos incluindo os do cristianismo? Na verdade, a palavra 'ética' aparece em alguns capítulos dos teus textos sobre o cristianismo incluindo o do blogue "Questions au christianisme". Estive a consultar no inédito, Qu'est-ce que le christianisme, "Étique et Étnique" e "Une étique de la fécondité, au-delá de ce que l'ont peut". Mas são abordagens complexas tais como o resto do texto exigindo estudo.

Enfim, uma pergunta só: como entendes a ética na filosofia e no cristianismo?

01/08/2012




F.B. : Nunca me dei ao estudo da ética em filosofia, excepto tê-la encontrado na Poética de Aristóteles, em relação com a katharsis na definição de tragédia (cap. 6), êthos dependendo da causa final (a finalidade da tragédia é provocar a katharsis no espectador), enquanto que o seu par contrastado, eidos, com três itens nessa definição, releva de causalidades estruturais, digamos. Aí, a tradução habitual é a de 'carácter', no sentido em que numa tragédia cada personagem deve, segundo Aristóteles (cap. 15), conservar sempre o mesmo 'carácter' (excepto se o seu carácter for a inconstância, não o ter). O que significa que o termo tem, em cada humano, o sentido de comportamento constante, virtuoso ou não, na sua maneira de seguir os costumes. A katharsis é a elevação da moral dos espectadores que a tragédia deve provocar, tem pois já um sentido 'ético'.

Creio que o termo mais antigo é ethos, habitação como residência, até porque também se aplicava aos estábulos dos cavalos: sentido claramente estrutural. Terá evoluído para êthos, digamos (não sei se houve 'evolução', mas é possível que explicitação, que veio a desdobrar-se em dois termos), para o sentido de carácter moral (a meu ver, a vantagem do termo 'moral' é designar a maneira como os costumes de cada um devem seguir os usos tribais estabelecidos, mos, mores em latim. Se se guardar o termo 'uso' para dizer a antropologia duma tribo, poderíamos distinguir os 'usos técnicos' dos 'costumes morais'.

Por mim, reservo o termo 'ética' para os que rompem com os usos morais da sua tribo, os quais andam em torno dos gostos de comer, beber, coragem na guerra, riqueza como honra, e coisas dessas, rompem e buscam novos comportamentos espirituais, digamos, incluindo intelectuais nos filósofos socráticos. Trata-se pois de atitudes a educar para viver de forma mais elevada do que a tribo propõe (mais perto do sentido de katharsis).

Quanto ao cristianismo, a coisa é complexa. Os chamados Dez mandamentos correspondem à moral base do cristianismo como religião para toda a gente, a partir dos séc. IV e V, moral tribal pois. Mas antes, o cristianismo era um movimento espiritual e, antes de se ter contaminado com éticas de tipo maniqueistas, o essencial da sua ética era a do amar o próximo como a si mesmo, que não há maior amor do que dar a vida pelos seus amigos (João 15, 13): já no Levítico (19, 18) se recomenda que se ame o seu vizinho como a si próprio, a parábola do bom Samaritano (Lucas cap. 10, 29ss), gente desprezada pelos Judeus, estende o próximo além da vizinhança, da tribo, das fronteiras étnicas. Digo algures no texto que citas, que 'amar o próximo' é a coisa mais difícil que há no mundo, mas que é acessível a qualquer um, pobre ou rico, inteligente ou néscio. É uma ética infinda.

01/08/2012





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 Imagem: desenho digital realizado coma mão esquerda. Obra plástica de Luís de Barreiros Tavares.

Vídeo de uma instalação de Luís de Barreiros Tavares

quarta-feira, 25 de julho de 2012

100. Duas notas a propósito de questões das duas mensagens anteriores. Nada, diferença e Ser - Heidegger




L.T. : Gostaria de deixar só duas notas a propósito das questões anteriores:

1. Platão nessa citação (Sofista 263e) usa, por um lado, o mesmo termo, pensamento (dianoia) enquanto o mesmo (tauton) que discurso (logos), e por outro, o mesmo que o diálogo (diálogos) interior (entós) e em silêncio (aneu phonês) que a alma tem consigo mesma (auton), estabelecendo no entanto diferença. A questão da mesmidade parece-me importante neste passo, mas a questão do dia de dia-logos no jogo com o dia de dia-noia também.
O que me parece interessante é a relação entre o 'dia' de diá-logos como pensamento (dianoia) e o 'dia' de pensamento (dianoia) como discurso (logos).

2. "Or, ces phonèmes et ces lettres sont retirés strictement de la scène du sens de la communication, d'eux mêmes ils ne veulent rien dire, ne sont non plus image de rien (...)" (La philosophie avec sciences, § 35).
a) Eu estaria tentado a dizer que a afirmação "não são imagem de nada", implicando também "não quererem dizer nada", marca-se já enquanto imagem de alguma coisa, de algo. Porquê? Porque se emprega o termo, a palavra 'imagem'. Embora esta observação remeta para questões metalinguísticas como já tiveste oportunidade de chamar a atenção noutro momento deste blogue.
b) Mas a par disso, no 'imagem de', o 'de', a preposição 'de', seja no sentido predicativo (lógico) ou não - sem esquecer a questão semântica (significação, sentido) para ambas as alíneas - não relevará já de 'imagem de algo' e ao mesmo tempo de 'algo de imagem'? Não haverá algo de imagem na linguagem verbal, embora ambas não sejam a mesma coisa?
Questões que aparecem agora mais claras e que estou em crer algumas pessoas gostariam de colocar-te mais ou menos assim...

25/07/2012

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F.B. : Creio que a tua dificuldade tem a ver com a noção de 'diferença'. A diferença, entre duas côres, duas mesas, etc., não é nada, nem cor nem mesa, nem visível nem audível, não sensível. Por isso não é silêncio, nada a ver: silêncio é não som, não voz.
Se olhares para o Heidegger, ajuda a perceber que a diferença ontológica, entre o Ser e o ente, não é um ente (nem som nem voz nem cor nem mesa), isto é, o Ser é a diferença, que ele dirá 'nada'. Nada de ente, de substância. Portanto diferente de 'ente', o Ser. Está longe de ser evidente.
Aqui é o semelhante: a diferença entre sons ou letras não é 'nada', é o significante. Não apenas o fonema e a letra, mas também a palavra, a frase, o texto. A mesma frase do início dos Lusíadas em várias tipografias ou na letra dum aluno de liceu: são sempre empiricamente diferentes, mas lemos sempre a mesma frase nas diferentes grafias. Porque as diferenças entre as letras de uma tipografia (as / armas / e / os / varões) são as mesmas entre elas do que são noutra tipografia (as / armas / e / os / varões), ou noutra (as / armas / e / os / varões). Transpõe este exemplo para uma voz aguda, outra grave, outra infantil, outra tremida de velhote, e tens o mesmo exemplo.
É este nada - diferença que permite que nos entendamos com vozes e letras diferentes, aprendemos a ouvir vozes diferentes e entender as mesmas palavras, a ler grafias diferentes e entender as mesmas palavras. Foi para atingir este 'nada' que Derrida recorreu à redução do Husserl, o nível 'transcendental' sendo a única maneira de evitar o empirismo (que só vê sons); depois, rasurou essa passagem que faria do rasto, da différance, um eidos, por exemplo, e ficou apenas com a diferença nada, mas com o tempo ('a') e a estrutura da relação ao outro (que é a linguagem aprendida dos outros). Mais uma vez, não é evidente, percebo que tenhas dificuldade.
Não tem nada a ver com silêncio, que é ausência de substância, não diferença. Em Platão: dia-logos: de logos para outro logos, através (dia); dia-noia, de nous para outro nous da mesma alma. A diferença entre ambos é um ser com voz e o outro sem voz, em silêncio interior; o mesmo: Platão não nega que o pensamento seja de palavras e frases, de sintaxe, etc, embora não fale nisso (nem tinha ainda gramática de jeito; é nesse mesmo Sofista que pela primeira vez, nos textos que temos, aparece a distinção nome / verbo). Nada a ver com fonemas, palavras, significantes.

25/07/2012

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

99. Aneu phonês - Platão, Sofista, 263e




L.T. : Não esquecendo por exemplo os §§ 35-38 do Filosofia com ciências no séc.XX. Não pretendendo separar 'fonema' de 'letra', por uma questão de etapas, a minha análise vai aqui mais no sentido da questão do fonema do que da letra. Ver mensagem 2 com a pergunta inicial do bLogos. Ver também 88 e 89.
Embora já tenhas analisado estas questões, gostaria de reformulá-las. Sendo os fonemas unidades discretas (designação pouco usual nos teus textos, creio), "não querendo dizer nada nem sendo imagens de nada" (op.cit., §35), por si mesmas, eu diria, como os distingues, então, do aneu phonês (Platão, Sofista, 263e), não só em termos de inteligibilidade - que com ela não têm que ver, como mostras (idem, § 38) - mas principalmente em termos de silêncio, do sem voz, que é o que me interessa de momento? É que, segundo me parece, os fonemas apesar de serem da ordem da voz e da fala (tal como as letras são da ordem da escrita), não são propriamente voz, ou som. Pois eles são sempre nas suas diferenças na fala. A saber, não são voz nem som. Daí terem uma componente de silêncio, de sem voz, me parece.
Por assim dizer, não me refiro só ao 'imagem de nada' nem ao 'não quererem dizer nada' (não significam nada, podendo assim remeter para a tal confusão com o plano do inteligível, quer dizer, de uma pretensa hierarquia de significação superior) nem ao sensível (idem, § 38). Mas sim, refiro-me ao âmbito da voz, do som, da fala (embora não se deva confundir 'som' com' voz' e 'fala', mas tu saberás isto muito melhor do que eu). Não pretendia aqui estender a questão preferencialmente para o Fedro de Platão (274b-275c) para não complexificar ainda mais estas dificuldades que sinceramente para mim ainda são muitas. Basta-me por agora perguntar-te segundo o famoso passo que referi do Sofista de Platão, e que tem sido motivo importante neste bLogos. Mas se achares necessário analisar segundo a famosa história egípcia em Tebas, de Teuth e Thamus no Fedro, a par da extraordinária leitura do cap. "La pharmacie de Platon" no La dissemination do Derrida, por mim tudo bem.
Mas não deixo de perguntar-te, debruçando a análise no aneu phonês, como entendes que se poderá enquadrar estas questões no âmbito do que Derrida pretende desconstruir como fonocentrismo e logocentrismo na tradição da metafísica ocidental europeia?
No entanto preferia que a questão fosse agora mais nesta linha, sem esquecer a anterior, se assim achares: Partindo do pressuposto, se assim se pode dizer, de que o fonema - unidade discreta - não é propriamente voz, mas da ordem da voz, da fala, e tendo por conseguinte a componente do 'silêncio' e do 'sem voz' enquanto estruturais, como diferenciá-la do aneu phonês ventilado por Platão?

23/07/2012

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F.B. : O "sem voz" do Sofista implica que a dianoia (pensamento da alma consigo mesma) não se ouve de fora, como sucede ao logos (discurso com voz), por um lado, mas por outro Platão diz que são o mesmo (tauton, salvo erro), pensamento e discurso. Foi este 'mesmo' que me interessou, o que penso ser o parmenidianismo de Platão (como o mesmo termo ousia em Aristóteles, que os latinos traduziram por substância, a primeira, e essência, a segunda). E a ti interessa-te em que é que são diferentes: o 'sem voz' diz a separação dentro / fora, interior (alma) e exterior (corpo, voz) em Platão, e como a alma é o correlato dos Eidê celestes, as Formas ideais, a dianoia releva do inteligível (como a alma, incorruptível, imortal, divina nisso), a voz do sensível, como o corpo. O 'silêncio' do pensamento da alma teve larga descendência, mística e não só.
Ora, é o privilégio da voz, como perto da alma, em relação à escrita (mortal, sobrevive a quem escreve), que Derrida chamou logocentrismo: não apenas o inteligível (o pensamento, o teu silêncio, tudo isso, claro), mas também o discurso. Se se relesse o Crátilo, poder-se-ia ver se Platão considera ou não o fonema como significando qualquer coisa (na Poética, cap. 20, elemento - stoicheion -, claramente que não), julgo que não; mas joga na sua relação com a palavra, num sentido perto do 'arbitráro' do signo: será este que desqualifica a língua (grega, única que conta para ele) para o conhecimento e o leva a propor pela primeira vez a hipótese (veio-lhe como um sonho) das Formas ideais. Mas tanto num como noutro, o fonema é 'positivo', da ordem do sonoro, apesar do 'sem voz' e não da diferença, que é a grande descoberta de Saussure: "na língua não há senão diferenças, sem termos positivos". O exemplo que eu dava nas aulas era o seguinte: se cada aluno disser a mesma frase em suas vozes diferentes empiricamente, só se trata da 'mesma' frase porque as diferenças de sons elementares em cada voz são as mesmas do que nos outros: a essas diferenças o Saussure chamou fonemas. Derrida com ele: aplicou a esta diferença entre o plano dos sons, das vozes, e o plano dos fonemas ('significante') a redução fenomenológica do Husserl, aqueles, empíricos, são reduzidos, estes, puramente diferenciais, 'nada' (diria Heidegger) de 'substância, de sensível. Não necessariamente 'silêncio', já se viu.


24/07/2012


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 Imagem: desenho montagem digital - obra plástica de Luís de Barreiros Tavares
Vídeo de instalação de Luís de Barreiros Tavares