sábado, 20 de agosto de 2011

17. Sobre A. Damásio e 'O Livro da Consciência': cérebro e mente

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II – Cérebro, mente e mundo : dar o braço a torcer, mas... (diálogo com António Damásio)*
Na Neurologia como na Biologia
(…)
Nós, animais, somos seres no mundo
21. Esta afirmação central de fenomenologia biológica foi descrita a partir do § 7, fazendo-se a distinção entre dois sistemas, o da alimentação e o da mobilidade destinado antes de mais à caça e à fuga a ser caçado (§ 8). Creio que eles são relativamente autónomos um do outro, com dois órgãos apenas a pertencerem a ambos os sistemas: a boca e o cérebro. Aquela destacou-se da sua função essencial de preensão de animais ou plantas com os primatas, cujas mãos libertas se encarregaram da preensão (Leroi-Gourhain ensinou como tal libertação na marcha bípede foi decisiva para o aumento da capacidade do crânio), mas com a aquisição da fala a boca voltou a ter um papel preponderante no sistema da mobilidade. Quanto ao cérebro, a sua dupla função - que não poderá ser ‘separada’, julgo – não só se manteve como conheceu desenvolvimentos muito grandes com as invenções de usos técnicos e das respectivas receitas faladas: dum ponto de vista biológico, haverá que sublinhar o que julgo ser a relativa estabilidade do sistema da alimentação dos humanos[1] em contraste com as alterações do sistema da mobilidade, fortemente empenhada nos novos usos sociais. Estes, a linguagem incluída, são sem dúvida a grande manifestação do ser no mundo segundo Heidegger, o cuidado (Sorge). E de tal maneira se tornou importante para os cérebros humanos, que as filosofias e as ciências privilegiaram a actividade intelectual, artística e espiritual: é desse privilégio que resulta o preconceito filosófico que na Neurologia tenderá a fazer do sistema neuronal humano o modelo de que se procuram os antecedentes na evolução das espécies. Em A. D., é claramente afirmada a escolha do paradigma psicológico de William James, como Changeux, no Homem neuronal, privilegiava os filósofos empiristas do século XVIII. A. D. tem no entanto mais nítida percepção de que o cérebro pertence essencialmente ao sistema da alimentação, afirmando expressamente que a regulação da homeostasia do sangue é a grande função cerebral[2], embora o uso duma metafórica de gestão económica - “gestão vital”, “valor biológico” – assinale, à maneira dum sintoma, a ausência duma descrição da economia anatómica em termos da lei da selva. Esta noção ‘idealista’ de ‘valor’ contrasta com o grande rigor ‘materialista’ das suas descrições que seguem sempre a via anatómica, embora não contando com o ‘mundo’, com a cena ecológica, como factor de análise. É assim que o seu conceito mais forte parece ser o de ‘construção’, e o seu actor principal o ‘cérebro’, que constrói a mente, a consciência e o Eu (Self). Ora, a sua dupla pertença aos dois sistemas deveria levar a caracterizá-lo como um órgão simultaneamente biológico e social, o que diz a diferença maior desta proposta fenomenológica, a crítica do preconceito filosófico: o organismo é visto apenas nele, a cena ecológica (o mundo) não passa dum mero ‘ambiente’ sem incidência biológica significativa nessa ‘construção’.
Onde há neurónios, há mente
22. Para se entender a dupla função do cérebro enquanto regulador vital dum organismo no mundo da cena ecológica, há que começar por indagar da especificidade dos neurónios enquanto células: pelas suas muitas ‘sinapses’, eles agarram-se (aptô) uns com (sun) os outros em redes. O filósofo Derrida escreveu que “a auto-afectação é uma estrutura universal da experiência. Qualquer vivo é capaz de auto-afectação. E só um ser capaz de se auto-afectar, pode deixar-se afectar pelo outro em geral. [...] Esta possibilidade – outro nome da ‘vida’ – é uma estrutura geral articulada pela história da vida e dando lugar a operações complexas e hierarquizadas”[3]. Esta capacidade do ser vivo[4] permite caracterizar os neurónios como as células de ‘afectação’ umas pelas outras formando uma rede de auto-afectação, e ainda de hetero-afectação por outros vivos na cena ecológica, como presas possíveis, predadores de que se foge ou eventuais aliados. As várias referências de A. D. aos “córtices sensoriais iniciais” (p. 377-8) e “primários” sublinham o carácter ‘inicial’ desta hetero-afectação, assim como o esquema da p. 381: “o neurónio NEU apercebe-se do objecto OB e informa o neurónio ZADIG, o qual impulsiona a fibra muscular MUSC e provoca o movimento” e segue pela evolução acima, num processo que ‘começa’ pelo encontro entre o neurónio e a cena ecológica (o ‘objecto’, termo filosófico aqui tão feio).
23. O livro termina, no seu último apêndice, por evocar a questão da equivalência entre estados mentais e estados cerebrais (ou neuronais), que diz ser uma hipótese útil e não uma certeza, sendo “improvável que alguma vez venhamos a conhecer todos os fenómenos neuronais associados a um estado mental, mesmo sendo este simples”, desejando que venham a ser “encarados como as duas faces do mesmo processo” (p. 385, eu subl.). Eis o ponto em que o fenomenólogo gostaria de dar uma ajuda ao neurólogo: é que a sua demonstração convenceu-o do bem fundado da expressão sublinhada. É aonde se dá o braço a torcer. Nos textos referidos de 2007 (11.44-6) e 2009 (§§ 100-101), foi recusada a noção de ‘mente’ por razões de ordem filosófica: a diferença cérebro / mente seria (e é-o certamente em muitos textos) um resto da oposição corpo/alma. Propunha então substituí-la pela diferença entre os fenómenos cerebrais nos neurónios e os discursos e usos sociais correspondentes no mundo, os métodos de abordagem de uns e de outros sendo irredutíveis, relevando de ciências diferentes. A argumentação (2007, 6.3-11) fora conduzida sobre uma leitura de O sono e o sonho do neurólogo M. Jouvet, onde se contrasta claramente os sucessos neurológicos dizendo respeito aos mecanismos do sono e o insucesso flagrante relativo ao sonho (é preciso de cada vez acordar o paciente e perguntar: estava a sonhar?), como testemunha o desalento das últimas páginas do livro. O sono ao neurólogo e suas aparelhagens, o sonho ao psicanalista que o recolhe do discurso do sonhador, carregado de ‘subjectividade’, como se diz. As várias psicologias e linguísticas também estudam fenómenos cerebrais, discursivos e comportamentais. Ora bem, a definição de mente de A. D. levou-me a compreender esta duma forma muito estimulante: “as imagens – visuais, auditivas ou quaisquer outras – encontram-se disponíveis directamente mas apenas para o dono da mente em que ocorrem. São privadas e inobserváveis por terceiros” (p. 97, o autor sublinhou). Os termos ‘imagem’ (§ 25) e ‘dono’ (§ 27) são discutíveis, mas vê-se claramente o que é designado como mente: a auto-afectação do ‘dono’ do cérebro pelas ocorrências electro-químicas dos seus padrões neuronais. Esta seria uma maneira de entender a mente como diferente do cérebro: a auto-afectação numa zona onde só nós é que sabemos, onde nem sequer a aparelhagem neurológica pode chegar[5]. Esta diferença entre cérebro (circuito neuronal) e mente ou consciência só do próprio (que pede introspecção ou testemunho) é o ponto de irredutibilidade entre as duas metodologias, da neurologia e das psicologias, digamos. Exemplo simples: o médico tem que perguntar se ‘doi’, só o doente é que sabe (‘doer’ é a etimologia de ‘doente’!).
* De um texto inédito de F. Belo.


[1] Primeiro beneficiário da hominização, a culinária representando a indissociabilidade do que a tradição chamou ‘natureza’ e ‘cultura’, a primeira grande arte dos humanos, a gastronomia
[2] A grande demonstração desta tese encontrei-a na admirável Biologia das paixões de Jean-Didier Vincent.
[3] 1967a, p. 236.
[4] Que só o pode definir se se lhe juntar a capacidade de alimentação, do outro grande sistema da anatomia animal (o único das plantas, creio; e as bactérias?).
[5] Changeux, por quem tenho grande veneração, escandalizou-me ao responder ‘sim’ à pergunta de Ana Gerschenfeld, se ‘vai ser possível um dia ler o pensamento’ (Público de 13/07). Donde também o meu grande contentamento com esta noção de ‘mente’ de A. D.
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L.T. : 1. Já tinha dado uma olhada no princípio do capítulo 3 do Jeu des Sciences. Mas agora li-o com mais atenção e de facto falas de questões que eu referi no e-mail. Creio que estou a compreender melhor estas coisas.
Portanto, e tentando não perder o fio à meada, gostaria de tratar uns pontos do diálogo com António Damásio. Sobre os § 21, 22 e 23. A mente como “auto-afectação do ‘dono’ do cérebro [um dos termos discutíveis do teu ponto de vista, e creio que tens razão] pelas ocorrências electro-químicas dos seus padrões neuronais. Esta seria uma maneira de entender a mente como diferente do cérebro: a auto-afectação numa zona onde só nós é que sabemos, onde nem sequer a aparelhagem neurológica pode chegar. Esta diferença entre cérebro (circuito neuronal) e mente ou consciência só do próprio (que pede introspecção ou testemunho) é o ponto de irredutibilidade entre as duas metodologias, da neurologia e das psicologias ... (§22) ". Parece-me que se pode dizer a partir daqui que, 'nesta diferença', a mente, ‘auto-afectação’, é uma espécie de resultante presente, ou antes, algo que vem à presença, digamos assim, usando palavras de Heidegger. E o ‘cérebro’ (circuito neuronal) outra resultante, algo que vem também à presença. Mas "diferença irredutível", como dizes.
Pode-se fazer sempre esta pergunta ao neurocientista: o que é o cérebro? E já agora: o que é a mente? E até já se fala de mais do que um cérebro. Por exemplo, o cérebro cognitivo e o cérebro emocional. Andei só a espreitar O Livro da Consciência do Damásio.
2. Usei o termo 'resultante' porque me parece forte. Não sei se é o mais indicado aqui mas ocorreu-me durante a minha leitura destes parágrafos e já me tinha ocorrido noutros contextos. Mas sem pretensão a questões matemáticas, físicas e mecânicas sobre este termo que não domino minimamente. Assim, prefiro 'resultante' a 'resultado', 'consequência' ou 'efeito', p.ex. Porquê? De uma maneira geral este termo sugere-me algo de suspenso e de não estritamente finalizado. Remete para o sentido do que 'aparece' e para o de 'movimento'. Se não estou em erro creio que algures usas este termo.
09/03/2011

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L.T. : No entanto, as questões que coloquei não se cingem só a isto nem ao termo 'resultante' que usei. A questão tem mais que ver com a dificuldade em compreender como é que se estuda e se fala de 'mente' e de 'cérebro' ao mesmo tempo.
09/03/2011
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F.B. : Quem distingue muito o cérebro cognitivo e o cérebro emocional é um livro muito giro dum Servain Schreiber, Curar ; fora essa distinção-oposição, o livro é giríssimo.
A citação minha que fazes parece-me clara. A questão é: qual é a especificidade dos neurónios enquanto células? Serem afectadas umas pelas outras, portanto o conjunto delas (cérebro, nervos) 'sabe' o que se passa com o organismo e, pelos órgãos dos chamados sentidos, o que se passa fora. Mas o neurólogo tem-lhes acesso como a qualquer outro tipo de célula, estuda-a com instrumentos físicos e químicos, só que não 'sabe' o que eles dizem uns aos outros, se me posso exprimir assim, isso só o próprio sabe, é a sua cons-ciência, a sua mente; por exemplo, só eu sei que me dói um dente ou um dedo, o médico tem que perguntar. A mente não é outra coisa do que o cérebro, é ele funcionando saber de si.
10/03/2011
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Imagem: pintura - obra plástica de Luís de Barreiros Tavares - trabalho oferecido a Eduardo Lourenço.

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